A escola como trincheira civilizatória

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Na sociedade da informação, em que tudo é fotografado, filmado e compartilhado quase que em tempo real, temos visto algumas cenas chocantes, que têm dado o que falar. A revista Veja apresentou como reportagem de capa o caso do adolescente negro, acusado de furto, que foi preso nu a um poste, com um cadeado de bicicleta em volta do pescoço, na cidade do Rio de Janeiro. Este adolescente foi alvo do chamado “justiçamento”, que, grosso modo, significa aplicar penas a alguém à revelia da justiça. Um outro caso foi a execução sumária, no meio de uma rua em Belford Roxo, de um indivíduo também acusado de roubo.

Adolescente atado a um poste no Rio de Janeiro

Adolescente atado a um poste no Rio de Janeiro.

Não cabe aqui questionar o motivo do ato, tecer críticas ou julgar quem é culpado e inocente. O que desejo discutir é as duas palavras em destaque na dita revista ao abordar o caso do garoto – civilização e barbárie. Estes dois termos têm sido usados, na antropologia cultural, como exemplos de estágios de desenvolvimento, uma apropriação da teoria evolucionista. Assim, uma sociedade deve passar por “estágios evolutivos”, ou seja, a transição do estado de selvageria para a barbárie, da barbárie para a civilização. Estes conceitos são tratados por autores como Gordon Childe, Darcy Ribeiro, Arnold Toynbee, entre outros.

Ora, se o estágio civilizatório é o ápice do desenvolvimento social, e o Brasil é considerado um país civilizado, como conceber que atos de barbárie se instalem dentro da sociedade? Pior, surpreende a percepção de que estes atos vêm aumentando a cada ano, com pouca resposta por parte das autoridades e dos próprios cidadãos. É como um perigoso pacto de mediocridade, enraizado em um país que prima pelo individual, em detrimento do coletivo. E o que a escola tem a ver com isso? Me parece – e já discuti esta questão com os meus alunos – que a escola está entrincheirada no meio do aparente caos social, lutando para sobreviver. Sem ela, a sociedade perde um dos últimos bastiões contra a degradação moral que estamos presenciando.

No Colégio Marista, durante a CAMAR (Caminhada Marista, encontro de professores semelhante àqueles que ocorrem nas semanas pedagógicas), tivemos uma palestra que ilustra a importância da escola para a manutenção das conquistas civilizatórias. Na ocasião, discutidos as colunas, ou fundamentos, que sustentam a instituição escolar: o cultivo das faculdades intelectuais; o desenvolvimento da capacidade de julgar corretamente; a introdução ao patrimônio cultural; a promoção de valores; a preparação para a vida profissional; a disposição para a compreensão mútua; entre outros aspectos.

É uma grande responsabilidade. Mais do que isso, sobre esta coluna se assenta a sobrevivência dos valores sociais. Aliás, vale ressaltar que, além da educação, outras áreas fundamentais estão à beira do colapso, como a saúde e a segurança. Mas como o assunto é escola, voltemos a ela. Se a sociedade, governos e autoridades não tratarem com cuidado esta instituição e todos os seus envolvidos, o país corre o risco, mesmo com todas as conquistas econômicas e tecnológicas, de perder os rumos daquilo que chamamos de civilização.

By | 2014-02-11T13:30:09+00:00 11 de Fevereiro de 2014|Categories: Artigos|Tags: , |10 Comments

About the Author:

Professor, historiador e blogueiro, já trabalhei em algumas das maiores escolas públicas e particulares de Santa Catarina. Comecei a lecionar em 2001, sempre preocupado com um ensino caracterizado pela criatividade e inserção de novas tecnologias e metodologias variadas em sala de aula.

10 Comments

  1. Klaus do Iate 11 de Fevereiro de 2014 at 13:39

    Se a sociedade, governos e autoridades não tratarem com cuidado esta instituição e todos os seus envolvidos, o país corre o risco, mesmo com todas as conquistas econômicas e tecnológicas, de perder os rumos daquilo que chamamos de civilização.

    E este fenômeno não é restrito ao Brasil. Os estudiosos do passado diziam que decadência moral (perda dos valores, de certo-errado) de uma civilização é a principal causa de fim de civilizações. É realmente difícil dizer o que é causa e o que é consequência. A civilização ocidental ainda está dando sinais de progresso material em força militar, tecnologias, produção, mas o papel do Estado em controlar o indivíduo está muito nebuloso.

  2. Klaus do Iate 11 de Fevereiro de 2014 at 13:42

    Mesmo na teoria neoliberal do Estado mínimo, ele deveria garantir segurança, saúde e educação minimas. Do contrario , ele pagará um preço alto por sua omissão.

  3. Michel Goulart 11 de Fevereiro de 2014 at 16:30

    Pois é, infelizmente a nossa está em franca decadência

  4. Alexandre 11 de Fevereiro de 2014 at 18:08

    Esse tema dá um artigo bem maior,merece mais umas linhas,Michel!Escreve muito bem,parabéns.

  5. Josué Nicácio 11 de Fevereiro de 2014 at 21:59

    Estamos numa socidade capitalista em que vender educação (marista) ou saúde (Unimed) é racional. Thor Batista) atropelou e matou um trabalhador, pobre e preto. Está preso e acorrentado? A Casa Grande x Senzala, ainda são fatos!

  6. Michel Goulart 12 de Fevereiro de 2014 at 4:57

    Daria sim, mas gosto de mandar para os jornais e há um limite de caracteres. Obrigado!

  7. Rozana Baros 13 de Fevereiro de 2014 at 13:53

    Agora pense na cobrança que nós professores sofremos e como nos sentimos impotentes diante de um quadro caótico que é o descaso da educação em nosso país!

  8. Michel Goulart 13 de Fevereiro de 2014 at 14:24

    É frustrante mesmo, Rozana

  9. Klaus do Iate 18 de Fevereiro de 2014 at 12:01

    Botar tudo na conta do professor ou do médico ou do PM invidiualmente é uma baita covardia. E o papel dos pais, dos eleitores e dos governantes, dos meios de comunicaçao, dos pretensos formadores de opinião e das igrejas na banalizaçao do Mal?

  10. Klaus do Iate 18 de Fevereiro de 2014 at 12:03

    Sem contar a Historia que condiciona para caramba as alternativas. Não digo com isso que não haja opcoes de luta contra a banalizaçao do Mal, mas o leque é bem mais fechado para os paises ocidentalizados periféricos. Estou com o amigo a Casa Grande e a Senzala ainda estão aqui. Nào reconhecer isto é o primeiro passo para continuarmos na m…

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