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Bilbo, Gandalf e a filosofia do Bom dia!

março 29th, 2013|Artigos|6 Comments


Uma das coisas legais das Ciências Humanas, é a possibilidade de fazer leituras de praticamente qualquer coisa. Podemos dizer que o texto vai além do que é escrito pela humanidade, podemos buscar significados nas pinturas, nos filmes, nos quadrinhos, enfim, em qualquer aspecto criado pelo ser humano.

Neste sentido, a filosofia pode ser utilizada para fundamentar estas leituras e fiz isto em um trecho do livro “O Hobbit”, do escritor inglês J.R.R. Tolkien. Este livro, transposto para o cinema em 2012 (com continuação em 2013 e 2014) pelo cineasta Peter Jackson, foi escrito originalmente em 1937.

Acho que a obra dispensa apresentações. No trecho em questão, Gandalf, em seu primeiro contato com o hobbit Bilbo, é saudado com um bom dia, como observamos na imagem a seguir.

Gandalf e Bilbo em "O Hobbit"

A indagação de Gandalf tem muito de questionamento filosófico. Eu, particularmente, já fui saudado e saudei com bom dia milhares de vezes, mas nunca havia parado para questionar o seu significado ou a intenção por trás deste discurso. Gandalf vai além da saudação e a desdobra em várias interpretações.

Gandalf, aliás, é a personificação da sabedoria, representada pelo mago barbudo. Bilbo, por sua vez, personifica o tolo, aquele que não aprofunda em seus pensamentos, mantendo-se na acomodação da superficialidade.

Segundo Demerval Saviani (2002), a palavra reflexão vem do latim e significa reflectere,  voltar atrás. Isto significa que refletir pressupõe  retomar, revisar, revisitar. Esta é base do pensamento filosófico. Toda a reflexão é um pensamento, mas nem todo o pensamento é uma reflexão.

Porém, Saviani afirma que, para que a reflexão seja considerada filosófica, deve atender a três exigências: ser radical (deve ir à raiz da questão), ser rigorosa (deve ter um método, uma sistematização) e ser interdisciplinar (deve estar associada a outras áreas do conhecimento).

Voltando a questão do bom dia, Gandalf pensou filosoficamente, pois pegou uma inquietação (no caso, o bom-dia) e levantou alguns questionamentos, provocando Bilbo. Porém, a reflexão parou na negativa de Bilbo em aprofundar a discussão, preferindo continuar fumando o seu cachimbo.

E nós, quantas vezes agimos como Bilbo e preferimos apenas fumar o cachimbo?

Referência

SAVIANI, Dermeval. Educação: do senso comum à consciência filosófica. 14. Ed. Campinas: Autores Associados, 2002.

6 Comments

  1. Klaus do Iate 30 de março de 2013 at 10:24 - Reply

    O filósofo só tem que tomar cuidado para não resvalar na chatice. Sócrates gostava de dizer que Atenas era um imenso pangaré e ele mesmo era um carrapato que o fazia se mexer. E o que fazemos com carrapatos?Independente do papel crucial do filosofo em uma sociedade ou do destino triste/feliz que ele possa ter por conta de seu método, acho que ele pode ser contraproducente e, ao inves de fazer a sociedade refletir, induzir a sociedade a afundar o cachimbo na boca. O filósofo deve ser um sedutor. Como os missionarios de todas as religiões. Dizer 1000x para alguem para se arrepender de seus pecados e se converter ao Cristo/Alah/Buda… tem mais chance de conseguir um adepto ou um cara avesso a religiões?

    • Michel Goulart 30 de março de 2013 at 15:22 - Reply

      Os filósofos hoje não têm mais o mesmo reconhecimento do século XVIII

  2. Klaus do Iate 30 de março de 2013 at 10:33 - Reply

    Também é legal ver o par aparentemente oposto da reflexão e da intuição, que são as duas ferramentas do filósofo. A intuição só muito recentemente foi abordada pelas Neurociências. Ouvi uma outra explicação para a palavra reflexão. Um cara quer enxergar algo do outro lado de um muro alto. Ele põe um bambu com um espelho na ponta e consegue ver o objeto do outro lado do muro. O paralelo físico exato da forma refletida de pensar. Já a intuição, seria como você estar sentado a poucos centimetros de um objeto com cabeça encoberta por um véu muito opaco. De repente o véu é puxado por alguns segundos e novo véu, mais diáfano, é colocado sobre tua cabeça. Por alguns instantes o conhecimento é acessado EM BLOCO E SEM OBSTACULOS vindo de estruturas cerebrais não-relacionadas a comunicação verbal e depois você fica com um resíduo bom do conhecimento para converter em algo descritível. ACHO intuuição seria equivalente ao termo inglês insight.

  3. Klaus do Iate 31 de março de 2013 at 1:56 - Reply

    O par reflexãoX intuição está na diferença de sabedoria de Atená e Apolo, na visão da coruja e da águia. Vide o artigo dos 12 deuses olimpicos.

  4. pedro 4 de abril de 2014 at 13:56 - Reply

    é bom esse sait

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