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O Natal na Primeira Guerra Mundial

dezembro 21st, 2009|Artigos|32 Comments


Diante de tantos textos sobre a origem do Natal, tantas mensagens que, direta ou indiretamente, tocam nossos corações, não poderia deixar de dar uma singela contribuição neste período do ano. Porém, quero que esta contribuição tenha a cara do blog, ou seja, que fale de história e as maravilhas que o ser humano é capaz de fazer – em suas contradições -, e que outros chamam de milagre.

Soldados alemães e ingleses confraternizando no natal em plena Primeira Guerra Mundial

Este texto mostra como no Natal de 1914, em plena Primeira Guerra Mundial, soldados ingleses e alemães deixaram as trincheiras e fizeram uma trégua. Durante seis dias, eles enterraram seus mortos, trocaram presentes e jogaram futebol. Quero deixar claro que o texto não é meu. Foi extraído da edição online da revista Aventuras na História, de autoria de Bruno Leuzinger. Assim, vou destacar alguns pontos do texto, deixando um link para a leitura completa.

Noite feliz na terra de ninguém: Natal de 1914

Finalmente parou de chover. A noite está clara, com céu limpo, estrelado, como os soldados não viam há muito tempo. Ao contrário da chuva, porém, o frio segue sem dar trégua. Normal nesta época do ano. O que não seria normal em outros anos é o fedor no ar. Cheiro de morte, que invade as narinas e mexe com a cabeça dos vivos – alemães e britânicos, inimigos separados por 80, 100 metros no máximo. Entre eles está a “terra de ninguém”, assim chamada porque não se sobreviveria ali muito tempo. Cadáveres de combatentes de ambos os lados compõem a paisagem com cercas de arame farpado, troncos de árvores calcinadas e crateras abertas pelas explosões de granadas. O barulho delas é ensurdecedor, mas no momento não se ouve nada. Nenhuma explosão, nenhum tiro. Nenhum recruta agonizante gritando por socorro ou chamando pela mãe. Nada.

E de repente o silêncio é quebrado. Das trincheiras alemãs, ouve-se alguém cantando. Os companheiros fazem coro e logo há dezenas, talvez centenas de vozes no escuro. Cantam “Stille Nacht, Heilige Nacht”. Atônitos, os britânicos escutam a melodia sem compreender o que diz a letra. Mas nem precisam: mesmo quem jamais a tivesse escutado descobriria que a música fala de paz. Em inglês, ela é conhecida como “Silent Night”; em português, foi batizada de “Noite Feliz”. Quando a música acaba, o silêncio retorna. Por pouco tempo.

“Good, old Fritz!”, gritam os britânicos. Os “Fritz” respondem com “Merry Christmas, Englishmen!”, seguido de palavras num inglês arrastado: “We not shoot, you not shoot!”(“Nós não atiramos, vocês também não”).

Estamos em algum lugar de Flandres, na Bélgica, em 24 de dezembro de 1914. E esta história faz parte de um dos mais surpreendentes e esquecidos capítulos da Primeira Guerra Mundial: as confraternizações entre soldados inimigos no Natal daquele ano. Ao longo de toda a frente ocidental – que se estendia do mar do Norte aos Alpes suíços, cruzando a França –, soldados cessaram fogo e deixaram por alguns dias as diferenças para trás. A paz não havia sido acertada nos gabinetes dos generais; ela surgiu ali mesmo nas trincheiras, de forma espontânea. Jamais acontecera algo igual antes. É o que diz o jornalista alemão Michael Jürgs em seu livro Der Kleine Frieden im Grossen Krieg – Westfront 1914: Als Deutsche, Franzosen und Briten Gemeinsam Weihnachten Feierten (“A Pequena Paz na Grande Guerra – Frente Ocidental 1914: Quando Alemães, Franceses e Britânicos Celebraram Juntos o Natal”, inédito no Brasil).

Leia o texto completo

Escolhi este texto, pois acho que não existe nada mais emblemático do que uma guerra – na sua essência um símbolo de morte, desolação e divisão – ser o cenário de um momento tão especial, quanto o que foi mostrado. Acho que só o Natal é capaz disso. Renovam-se aí, portanto, as esperanças. E nada melhor do que a história para provar.

Feliz Natal!
Fröhliche Weinachten!
Buon Natale!
Joyeux Noël!
Merry Christmas!

32 Comments

  1. Wilkinson Da Rolt 21 de dezembro de 2009 at 20:32 - Reply

    Uma ótima História Michel!
    É histórias assim que me fazem ver que nem tudo no mundo está perdido, mesmo em tempos de guerra, as pessoas deixam suas diferenças de lado, e celebram uma data tão simbolica para a paz.

    Sucesso com seu Blog!
    Atenciosamente,
    Wilkinson Da Rolt de Souza

  2. Histórias & Estórias 21 de dezembro de 2009 at 20:51 - Reply

    Sim, eu assisti este filme este fim de semana! É muito intressante mesmo!!

  3. Ranniery Lima 22 de dezembro de 2009 at 0:13 - Reply

    A trégua de Natal de 1914 foi um episódio fantástico, já tinha ouvido falar sobre esse acontecimento, e existe até um filme sobre essa história (Joyeux Noël, e em português com o titulo Feliz Natal).

    Essa história mostra o que é ter um verdadeiro espírito de Natal. Que possamos tê-lo também!

    Feliz Natal a todos!

  4. Ricardo Chicuta. 22 de dezembro de 2009 at 11:49 - Reply

    Professor,esta esta me parecenso uma estorinha pra boi dormir.Será que os alemães tão pragmáticos e os ingleses tão fleumáticos iriam parar uma guerra por causa do natal?

  5. Prof_Michel 22 de dezembro de 2009 at 12:47 - Reply

    Wilkinson, concordo com você! Nem tudo está perdido.

    Histórias e Ranniery, obrigado por indicarem o filme. Será muito útil.

    Chicuta, tu achas que eu vou contar "estorinha" prá boi dormir no meu blog? hehehe. A guerra não foi interrompida, o que ocorreu foi uma trégua de Natal que durou alguns dias. Não podemos esquecer que a guerra estava no início (foi de 1914 a 1918), no fundo havia esperança de alguns que ela não fosse tão longe.

    • Klaus do Iate 22 de dezembro de 2013 at 14:15 - Reply

      Mas o alto oficialato dos dois lados ficou p… com a Trégua não-autorizada. Depois foram 4 anos de carne moída na guerra inconclusiva das trincheiras. E posteriormente a isto foi a vez dos generais ORDENAREM o entendimento e os soldados a negarem. Logo após 1aGG, eles queriam os anglo-franceses vitoriosos e alemães derrotados, cooperassem ao máximo para esmagarem, com ajuda dos russos brancos, o regime comunista recem-nascido (a pouco conhecida guerra de Intervenção).

  6. Prof. Adinalzir 22 de dezembro de 2009 at 19:20 - Reply

    Adorei a história e o vídeo… Está aí a prova de nem tudo está perdido.

    Um Feliz Natal e um Ano Novo cheio de paz!

  7. Tathiana 22 de dezembro de 2009 at 21:13 - Reply

    Oi Michel!
    Queria aproveitar minha visita diária ao seu blog pra desejar-lhe um bom Natal, um Ano Novo ainda melhor e muito sucesso pra vc.
    Um grande abraço!
    Tathi

  8. Prof_Michel 22 de dezembro de 2009 at 22:07 - Reply

    Adinalzir e Tathiana, desejo boas festas a vocês. Muita paz, amor e sucesso! Um grande abraço

  9. Igor Fontana 22 de dezembro de 2009 at 22:20 - Reply

    Muito boa a história Michel , voltei \õ/

  10. Prof_Michel 23 de dezembro de 2009 at 20:07 - Reply

    É isso aí, Igor, hehehe

  11. Geraldo 23 de dezembro de 2009 at 23:13 - Reply

    Olá Michel,

    Realmente é uma bela história, gostei muito da temática e da ambientação deste Natal.

    Abraço

  12. Sonia Regly 23 de dezembro de 2009 at 23:34 - Reply

    Fiz um vídeo em homenagem a todos vc, que estiveram comigo me prestigiando durante esse ano, o título é: E o Natal chegou! Homenagem aos amigos. Espero que gostem. Se esqueci de alguém, me perdoem é muita gente e a cabeça falha, mas os admiro de igual forma. Obrigada a todos pelo carinho.

    Feliz Natal!!!

  13. Profe Suely 24 de dezembro de 2009 at 0:51 - Reply

    Oi, Prof. Michel!

    Em geral, passo por aqui meio em silêncio…

    Hoje vim te desejar um feliz Natal! e um feliz 2010!

    Espero que continues nos inspirando com tuas "hitórias"!

    Muito obrigada pela parceria!

    Paz! Saúde! Esperança!

    Abraços!

  14. Rita Quaresma Avellar 24 de dezembro de 2009 at 11:24 - Reply

    Michel, obrigada por compartilhar conosco seu conhecimento. Feliz Natal e que continue em 2010 a nos inspirar!
    Felicidades, Rita.

  15. Prof_Michel 24 de dezembro de 2009 at 15:55 - Reply

    Geraldo, valeu

    Sonia, obrigadão pela homenagem. Adorei o vídeo!

    Suely e Rita, fico contente que esteja inspirando vocês 🙂

    Um ótimo Natal a todos vocês!

  16. Nanuni Kokoritu 28 de dezembro de 2009 at 10:21 - Reply

    Vivendo e aprendendo…
    Não conhecia a história desse Natal. Obrigado pelo compartilhamento!

  17. Prof_Michel 28 de dezembro de 2009 at 14:43 - Reply

    Nesse caso, considere o termo "vivendo" ao pé da letra.

  18. Oswaldo 15 de outubro de 2010 at 11:57 - Reply

    Prof. Michel, bom dia

    Lembro-me de haver assistido a um vídeo clip do cantor Paul Maccartney (lembrei que ele vem fazer apresentações no Brasil por esse dias) abordando justamente esse assunto. O Sr. lembraria (ou alguém nestes comentários se a música cantada era "Hope of Deliverancy"?

  19. Oswaldo 15 de outubro de 2010 at 12:07 - Reply

    Em tempo Prof. Michel – descobri a musica – é Pipe of Peace de 1983 e retrata mesmo o assunto –

  20. Prof_Michel 15 de outubro de 2010 at 18:15 - Reply

    Uau, que dica fantástica, Oswaldo. Valeu, garoto! Abração

  21. Francisco Pedro Velasquez 23 de dezembro de 2010 at 8:45 - Reply

    Oi Michel,

    Falando em WW1, acho que já li sobre uma partida de futebol entre alemães e ingleses no front…Você lembra?

  22. Prof_Michel 23 de dezembro de 2010 at 14:29 - Reply

    Será que não é o mesmo episódio?

  23. Claudio Moreira Pereira Júnior 2 de junho de 2011 at 15:22 - Reply

    A guerra as vezes (muitas), não leva a nada, para que praticar um ato violento em quanto poderiam estar praticando a Paz?

  24. Yaasmin 4 de junho de 2011 at 21:52 - Reply

    Adorei o post, essa história realmente me impressionou ao assistir o filme "Feliz Natal"
    Concordo com você, somente o espírito do Natal é capaz de fazer cessar uma guerra. Saber que isso realmente aconteceu nos faz sentir que ainda há esperança para o mundo!

    Abraço, blog maravilhoso,
    Yaasmin Azeveedo.

  25. Prof_Michel 4 de junho de 2011 at 22:34 - Reply

    Obrigado, Yaasmin. Beijão

  26. Renata Guarnieri 2 de Março de 2012 at 23:07 - Reply

    Olá, tudo bem?
    Estou lendo o livro “Queda de Gigantes”, de Ken Follett. O romance é ambientado na Primeira Guerra Mundial e relata em um dos capítulos esta trégua que uniu países em guerra.
    Como partes do livro são reais e outras não fiquei em dúvida quanto a este episódio por ser inusitado e, lendo este post, pude confirmar sua veracidade.
    Ainda estou na página 700 do livro, tenho mais 210 pela frente, por isso a guerra aqui para mim ainda não acabou, mas em breve saberei com detalhes como terminou…
    Parabéns pelo post e pelo site que acaba de ser incluido nos favoritos

    • Michel Goulart 3 de Março de 2012 at 10:49 - Reply

      A fonte está confirmada, então. Legal, Renata. Boa leitura!

  27. Juciely 20 de dezembro de 2013 at 11:36 - Reply

    Adorei essa história, para aqueles que não acreditam em milagres essa é uma prova viva que o homem tem um bom coração e pode mudar diversas situações, para isso basta querer.

  28. Fernanda Guimaraes 24 de dezembro de 2013 at 13:27 - Reply

    Amei isso ate compartilhei com uns amigos Historiadores Parabéns Muito Interessante

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