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Blogosfera: um caminho para o historiador

fevereiro 1st, 2013|Artigos|14 Comments


Este artigo é de total responsabilidade do autor e foi escrito por Noé Gomes, professor da rede pública estadual do Rio Grande do Sul e editor do Portal Falando de História.

Blogosfera: um caminho para a legitimação de nosso ofício

Sempre compreendi tanto na condição de acadêmico como professor e historiador atualmente que tenho o compromisso social de servir de interlocutor entre a academia e a sociedade. Recordo-me que uma aula do Estágio em Arqueologia, num momento de debate entre os colegas, a minha querida professora Gislene Monticelli disse algo que ficou marcado na minha memória: “Temos que popularizar a História e a Arqueologia, isto não significa vulgarizá-la!” Ainda naquela aula me lembro de que a discussão tomou um rumo consensual: é preciso que tanto os acadêmicos, bem como os professores e pesquisadores divulguem os seus trabalhos, que interajam com a sociedade sob a pena de se tornarem indivíduos alienados, e que a Universidade tenha um compromisso social, contratando profissionais comprometidos com as transformações sociais, políticas e culturais.

Blogosfera, um caminho para o historiador

Em 2008, ainda cursando História, já há cinco anos, é que dei inicio de maneira discreta e quase que por impulso aos meus primeiros passos na blogosfera. Naquele momento já estava acesa a chama da divulgação da História, presente em minha mente desde os meus primeiros dias na Graduação. Senti desde aqueles dias que é necessário que ocorra uma legitimação, ou seja, um reconhecimento por parte da sociedade. A partir da criação do Blog Falando de História fui inserido no mundo virtual, o qual abre um leque imenso de contatos, assuntos e possibilidades. Foi criado com a intenção de ser um espaço voltado à melhor utilização das ferramentas de divulgação da História no ciberespaço e para um público-alvo amplo: professores, estudantes, entidades de pesquisa, entidades de ensino (universidades, escolas, faculdades) e publico leigo interessado em História.

A preocupação com o tipo de conteúdo veiculado na internet estava muito presente enquanto problema, posto na afirmação de Denis Rolland “História sem historiador”. Alinhei-me a esta colocação e percebi que meu trabalho no blog estava convergindo com sua preocupação. Desde seu início, meu blog teve sempre o cuidado de esclarecer fontes e procedências das informações veiculadas.

E nesse sentido, penso que o processo de regulamentação da profissão que tramita nos corredores de Brasília faz parte de um processo muito maior que a própria oficialização do ofício do historiador. De fato, urge a regulamentação. Temos que lutar por isto, precisamos ser reconhecidos como profissionais. Porém pergunto: e a nossa legitimação perante a sociedade? Somos vistos como úteis para a sociedade brasileira?

A meu ver de nada vale a regulamentação se não houver um processo de legitimação do ofício do historiador, digo isso no sentido de demonstrar a real importância dos historiadores. E logo entendo que os blogs podem desempenhar este papel. Claro, que não se pode esperar que esta legitimidade seja dada de forma gratuita pela sociedade. Na verdade, ela é uma conquista coletiva e como tal precisa ser construída de maneira que haja um entendimento do papel social que nós historiadores temos.

Assim como o sociólogo Betinho que legitimou a sociologia, ao lutar contra a fome, Osvaldo Cruz no início do século XX com o processo de vacinação da população brasileira entre tantos outros intelectuais brasileiros que romperam com os academicismos de suas áreas e foram para rua, assim deve ser com nós historiadores.

Não estou dizendo que no Brasil não houve historiadores que tiveram um papel social na transformação social do país, seria injusto não citar a contribuição de homens como Raimundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Nelson Wernewck Sodré, Sandra Pesavento, Ieda Goutfleid e tantos outras o outros historiadores que tem nos trazido releituras importantes. O que digo simplesmente é que os historiadores possuem uma responsabilidade social e que não podem se eximir dela.

Neste sentido, a blogsfera, segmento que orgulhosamente faço parte, tem este compromisso. Todos os blogs que leio expressam isso, vejo-os como uma irmandade, onde as ideias ligam as pessoas cujo local de integração são estes microssites. Saímos da zona de conforto, para produzirmos ou para compartilharmos o que nos tocou.

Não pretendo ser autobiográfico, longe disto, mas a partir desta experiência é que construí um TCC , cuja nota final foi de 9,5 com o título de “A Blogosfera e a popularização do conhecimento histórico no século XXI” em que a pesquisa ali exposta reflete a relevância dos blogs para a difusão e popularização da História no século XXI, num recorte do universo dos blogs voltados à História. Olho para o nosso segmento e tenho a plena convicção de que a sociedade nos legitima, pois estamos retribuindo as nossas formações. Por isso posso dizer que o trabalho como blogueiro tem me trazido um sentimento de alegria por poder estar ajudando a sociedade na indicação de materiais e eventos.

Ao término do meu TCC percebi algumas coisas muito importantes: a primeira é que o objeto desta investigação está ligado ao tempo presente e como tal é um grande desafio. Foi ao longo da construção deste TCC que consegui visualizar a História do Tempo Presente como grande campo a ser explorado. A segunda, é que toda esta vivência e a sua análise tem nos provocado a meditar sobre o tipo de história que está sendo veiculada na internet. E esse é um desafio para nós historiadores, já que a Filosofia já tem trabalhos sobre a internet, destaco Michel Heim e Pierre Lévy, a Sociologia com Manuel Casttells e Dominique Wolton e enquanto isso o que escutei na minha banca? “Noé, este tema poderá sofrer muita resistência para pesquisas na academia, terás que sempre estar legitimando-o, sempre demonstrando a sua real relevância”.

Ou seja, mais uma vez o desafio de servir de interlocutor entre a academia e a sociedade está cada vez mais latente. Talvez, cabe a nós sermos os seus condutores. As resistências ao nosso trabalho poderão aparecer, porém é necessário que os blogs sejam alimentados por acadêmicos e historiadores, que estejam em contínuo estudo e no meu caso sinto que o próprio blog me obriga a estar em busca de informações, conhecimentos e materiais.

De fato a previsão de um dos meus avaliadores se concretizou. Ao apresentar o tema num anteprojeto de seleção de Mestrado em uma das universidades federais no interior do Rio Grande do Sul obtive como resposta de que esta temática não teria um cunho histórico. Na tentativa não de responder a esta afirmação ao qual discordo, mas de trazer um elemento de reflexão, extraio uma fala de Antonie Prost , ao qual transcrevo:

[…] É possível fazer – faz-se – história de tudo: clima, vida material, técnicas, economia, classes sociais, rituais, festas, arte, instituições, vida política, partidos políticos, armamento, guerras, religiões, sentimentos (o amor), emoções (o medo), sensibilidade, percepções (os odores), mares, desertos, etc. Pela questão é que se constrói um objeto histórico, ao proceder um recorte original no universo ilimitado dos fatos e documentos possíveis […] (PROST, p.75)*

Se é possível fazer a historia de qualquer objeto, pergunto então: porque os blogs não podem serem considerados agentes históricos? Vejo os historiadores blogueiros como elementos históricos de um contexto atual e que me valho da parábola bíblica do bom semeador, visualizo-os como semeadores. E assim como nesta narrativa toda boa semente, gera bons frutos. Pois como dizia Geraldo Vandré na sua música “Pra não dizer que não falei de flores”,”Esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer!” Está na hora de assumirmos os nossos papeis de fato, e nos legitimarmos como profissionais que desenvolvem em seus ofícios a plena cidadania.

* PROST, Antonie. Doze Lições de História. Autêntica:  Belo Horizonte, 2012

14 Comments

  1. Caroline 1 de fevereiro de 2013 at 9:36 - Reply

    Olá, Noé

    Talvez seu projeto tenha relação com a Didática da História, pensando-a como reflexão sobre os usos sociais do conhecimento histórico.

    Parabéns pela iniciativa!

  2. Klaus do Iate 1 de fevereiro de 2013 at 11:17 - Reply

    Se os historiadores correm o risco de serem techados de alienados pelas autoridade politicas e academicas. Estes tamb’em podem ser considerados tamb’em alienados por outro aspecto. Viver ‘e tentar e errar na maioria das vezes. Porem cometamos burradas ineditas! Estou cheio destas autoridades politicas que por desconhecer tentativas passadas ou por medo de cometer anaconismos, incorrem nos mesmos erros.

  3. Noé Gomes 1 de fevereiro de 2013 at 16:37 - Reply

    Olá Caroline!
    Sobre a reflexão do uso das tecnologias para um melhor fazer didático eu sinceramente não tinha refletido nesta perspectiva. Tens toda a razão. Entretanto tenho desejo de historiar e refletir sobre o papel da blogsfera para a sociedade como um todo. Muito obrigado pelo teu comentário. Espero que possamos criar teias de novas discussões. Um abraço Noé

  4. Noé Gomes 1 de fevereiro de 2013 at 16:54 - Reply

    Olá Klaus!
    Entendo profundamente a tua crítica ao Academicismo. Sobre o temor do anacronismo te digo que é algo que sempre vai nos acompanhar. Entretanto, necessitamos apurar a visão crítica em relação a nós mesmos. Sobre a acadêmia, lembra-te que somos frutos dela, querendo ou não! O que devemos fazer então? Mudar a mentalidade a partir de novas práticas, muitos criticam a ANPUH, mas quantos participam com o intuído de transforma-la? Afastar-se dela talvez não seja o melhor caminho.

  5. Michel Goulart 1 de fevereiro de 2013 at 17:55 - Reply

    Noé, o Klaus é fera em história! Com o tempo, você vai ver. Ele tem um conhecimento enciclopédico sobre o assunto e aprendo bastante com ele.

  6. Noé Gomes 1 de fevereiro de 2013 at 18:55 - Reply

    Realmente eu concordo. Percebi pela sua reflexão sobre o tema.

  7. Klaus do Iate 3 de fevereiro de 2013 at 19:21 - Reply

    Noe, nao se trata de queimar toda a civilizacao e reinventar tudo do zero, a roda, a polvora e a net, mas convidar todos os envolvidos a descer de suas torres de marfim. Esta era a proposta da interdisciplinaridade e da abertura dos portoes da universidade a sociedade que a alimenta. Especialmente triste é quando o governante nao escuta o filosofo e o filosofo nao escuta o governante.

  8. Klaus do Iate 3 de fevereiro de 2013 at 19:36 - Reply

    Nenhum fato historico se repete, cada fato tem seu proprio set de causas e consequencias. Mas por que só enxergar as particularidades e nao as semelhanças entre diferentes fatos tb? Para melhor defender o seu (deles) feudo de connhecimento de especialistas no Povo do Copinho das Linhas Quebradas? Reclama-se de jornalistas estarem tomando o lugar de historiadores na divulgaçao da Historia! Mas quantos se arriscam a temas mais abrangentes, comparativos ou interdisciplinares? Quantos sao chamados pelo Poder para ajudar? Quantos aceitam quando sao chamados? E quando vem alguem a estudar novos metodos de ensino ou potencial de algum meio (nao-projetado para ensino) ensinar, la vem os senhores feudais a defender seus feudos. Sei que nao é caso para revolucao, mas certamente é caso de uma reforma funda da Didática, nao só de Historia, mas de muitos outros ramos do saber. Os tempos nos pressionam a isto, nao?

  9. Noé Gomes 5 de fevereiro de 2013 at 9:47 - Reply

    Prezado Klaus, também não gosto da política da terra arrasada. Aliás o meu intuito com este texto é o de alertar para o seguinte fato: só teremos os nossos espaços garantidos, se legitimarmos as nossas ações de forma coerente e cidadã. Ou seja, não podemos esperar pelos outros. Valendo-me de Geraldo Vandré, “Quem sabe faz a hora, não espera acontecer!” Sobre o fato dos jornalistas usarem os espaços dos historiadores, concordo em parte contigo, pois sinto que muitos historiadores legitimam isto. Por isso que insisto na nossa legitimação enquanto classe primeiramente. O reconhecimento da sociedade é um processo natural ao meu ver.

  10. Noé Gomes 5 de fevereiro de 2013 at 9:51 - Reply

    Sobre o fato dos intelectuais não serem escutados pela classe política e vice-versa eu penso honestamente que a raiz disso se dá pelo simples fato da nossa classe política não ter em linhas gerais uma formação não só intelectual mas também cultural. Temos que ser populares, mas não se pode perder as nossas caracterísitcas. Falo por experiência de vida, que muitas vezes as nossas formações são colocadas de lado em nome de interesses políticos momentâneos.

  11. Klaus do Iate 5 de fevereiro de 2013 at 15:11 - Reply

    Perfeito, Noé.

  12. Noé Gomes 6 de fevereiro de 2013 at 9:58 - Reply

    Klaus isso é uma realidade infelizmente.

  13. Klaus do Iate 7 de fevereiro de 2013 at 7:10 - Reply

    E com relação a jornalistas e governos, acho que ultimamente os governos de todo mundo só governam para a mídia. O norte é sempre: “o que a mídia achará disto?”.
    Como a mídia é atualmente uma empresa como outra qualquer, que só quer lucro, guia-se no “quanto pior melhor”.
    Como somos ainda muito movidos pela autopreservação e preservação da especie, somos inconscientemente atraídos por violência e sexo, logo as noticias relacionadas a eles geralmente bombarão.
    E,ao invés de realizar uma especie de fiscalização dos governos, ou uma descrição parcial dos fatos (inclusive das boas novas) temos um sensacionalismo barato e alianças políticas (só mostrar as gafes dos governos que estão “de mal” naquele instante com a mídia).

  14. Noé Gomes 7 de fevereiro de 2013 at 23:48 - Reply

    Sobre a mídia Klaus eu me valho deste pensamento: é preciso que o bem seja ousado. Creio muito nesta frase. Penso sinceramente que é necessário que tenhamos mais ousadia e neste sentido que devemos valorar a mídia alternativa. Sobre o cenário político nacional, não preciso de palavras. O fato é que a blogsfera vem a ser um meio em que estes apontamentos estejam presentes neste espaços.

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