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Procusto e as cegueiras do conhecimento

março 13th, 2013|Artigos|10 Comments


Este artigo é de total responsabilidade do autor e foi escrito por André Rodrigues, historiador, coordenador do curso de licenciatura em História da UNIBAN/ANHANGUERA e editor do blog História em Perspectiva. Outros artigos do mesmo autor:

Procusto e as cegueiras do conhecimento

Procusto, segundo a mitologia dos gregos antigos, era um malfeitor que morava numa floresta na região de Elêusis (península da Ática, Grécia). Ele tinha mandado fazer uma cama que tinha exatamente as medidas do seu próprio corpo, nem um milímetro a menos. Quando capturava uma pessoa na estrada, Procusto amarrava-a naquela cama. Se a pessoa fosse maior do que a cama, ele simplesmente cortava fora o que sobrava. Se fosse menor, ele a espichava e esticava até caber naquela medida.

Cama de Procusto

A simbologia por trás desse mito representa a intolerância diante do outro, do diferente, do desconhecido. Representa uma visão de mundo totalitária daquele sujeito que quer modelar todos os seres a sua própria imagem e semelhança. É a recusa da multiplicidade, da diversidade, da criatividade, da originalidade.

Procusto ou “as cegueiras do conhecimento” esteve presente, por exemplo, na consciência dos juízes de Sócrates, quando condenaram-no a morte por ter “corrompido” a juventude ateniense; esteve presente também no imaginário dos soldados romanos que perseguiam e matavam cristãos por seguir uma religião que se opunha ao paganismo e a figura sagrada do Imperador; continuou presente no Tribunal da “Santa” Inquisição que condenou à fogueira todos àqueles que eram contrários aos seus dogmas: Giordano Bruno, Galileu Galilei (foi poupado por ter negado suas teorias científicas) e até Joana D´arc;  esteve presente também na consciência dos reis absolutistas; nas revoluções burguesas; no processo de escravidão mercantil; na formação dos partidos nazi-fascistas; no extermínio de milhões de judeus nos campos de concentração, de trabalho e também nas Guerras Mundiais… (só para citar alguns poucos exemplos…)

O espírito de Procusto, esteve presente em várias etapas de nossa história e ainda continua atormentando a escola tanto quanto o processo educativo, em outras palavras, está presente na consciência humana produzindo “cegueiras”, erros e ilusões do conhecimento. Dessa forma:

Quanto sofrimento e desorientações foram causados por erros e ilusões ao longo da história humana, e de maneira aterradora, no século XX! Por isso, o problema cognitivo é de importância antropológica, política, social e histórica. Para que haja um progresso na base no século XXI, os homens e as mulheres não podem mais ser brinquedos inconscientes não só de suas idéias, mas das próprias mentiras. O dever principal da educação é de armar cada um para o combate vital para a lucidez. (MORIN, 2003, p. 33)

Mas como perceber os erros, ilusões e cegueiras em torno do conhecimento humano? Ou melhor, como reconhecer o fantasma de Procusto? O filósofo francês Edgar Morin em seu livro: “Os sete saberes necessários à Educação do futuro”, nos apresenta algumas explicações:

 O conhecimento […] é o fruto de uma tradução/reconstrução por meio da linguagem e do pensamento e, por conseguinte, está sujeito ao erro. Este conhecimento, ao mesmo tempo tradução e reconstrução, comporta a interpretação, o que introduz o risco do erro na subjetividade do conhecedor, de sua visão de mundo e de seus princípios de conhecimento[…] A projeção de nossos desejos ou de nossos medos e as perturbações mentais trazidas por nossas emoções multiplicam os riscos de erro. (MORIN, 2003, p. 20)

Portanto, o conhecimento é um processo e produto da consciência humana, na medida em que, colhe dados da realidade através de habilidades de pensamento (tradução/reconstrução); dados que são construídos pela percepção dos sentidos (tato, visão, audição, olfato e paladar); processados por nossa imaginação e linguagem; armazenados na memória e transmitidos pela oralidade. Através do processo de “tradução e reconstrução” corre-se o risco do erro, pois a Interpretação (decorrente do processo do pensar) depende da subjetividade do sujeito que conhece e de sua visão de mundo (conjunto de costumes, tradições, hábitos, crenças, etc.) que são assimilados socialmente.

Nesse argumento conceitual em torno dos erros, ilusões e cegueiras que são inerentes no processo do conhecimento humano, Morin expõe, pelo menos, duas ideias que merecem ser problematizadas: “A subjetividade do sujeito que conhece” e a “sua visão de mundo”.

Quando pensamos em “subjetividade do sujeito que conhece”, e nos remetemos a outras leituras de Morin, entendemos que o ser humano é ao mesmo tempo sapiens, no sentido de ser dotado da racionalidade, mas também é demens, isto é, capaz de condicionar seu pensamento e ação de acordo com sua afetividade, desejos, medos, perturbações mentais, por suas emoções de maneira geral. Isto quer dizer que subjetivamente, somos “atormentados” por nossas emoções que também condicionam nossas atitudes. Dessa forma, sabemos que em muitas ocasiões temos uma alta probabilidade de cometer erros e ilusões quando agimos de acordo com “impulsos” afetivos, ao ponto de mentir para si próprio ou projetar no outro nossos próprios erros, Segundo Morin:

Cada mente é dotada também de potencial de mentira para si próprio (self-deception), que é fonte permanente de erros e ilusões […] a tendência a projetar sobre o outro a causa do mal fazem com que cada um minta para si próprio, sem detectar esta mentira da qual, contudo, é autor. (MORIN, 2003, p. 21)

Mas também, podemos cometer o erro de agir com tamanha racionalidade, ao ponto de nos desumanizar (perdendo o senso de solidariedade e coletividade), como nosso amiguinho Procusto, ou nossa querida Escola que pode ser caracterizada como uma “Instituição regularizadora, normalizadora de comportamentos, seletiva e discriminatória” como alega a educadora Luiza Cortesão da Universidade de Coimbra em palestra proferida no VI Colóquio sobre Instituições Escolares da Universidade Nove de Julho em setembro de 2009.

A segunda consideração que permeia a definição de “cegueiras do conhecimento” para Morin é a consciência de “visão de mundo” do sujeito, que o autor irá classificar como “paradigmas do conhecimento”, estrutura que condiciona os seres humanos a erros interpretativos da realidade, pois direciona o seu conhecimento, pensamento e ação segundo concepções que são inscritas culturalmente, é o que denomina imprinting cultural, “marca matricial que inscreve o conformismo a fundo, e a normalização que elimina o que poderia contestá-lo” (MORIN, 2003, p. 28). Portanto:

 …O paradigma é inconsciente, mas irriga o pensamento consciente, controla-o, neste sentido, é também supraconsciente […] o paradigma instaura relações primordiais que constituem axiomas, determina conceitos, comanda discursos e/ou teorias […] Assim, um paradigma pode ao mesmo tempo elucidar e cegar, revelar e ocultar. É no seu seio que se esconde o problema-chave do jogo da verdade e do erro. (MORIN, 2003, p. 26; 27)

O fantasma de Procusto é justamente essa “visão de mundo” fechada em si mesma, paradigmática, dogmática e totalitária que imprime uma matriz cultural que permeia nossas ações e pensamentos e que inevitavelmente conduz os seres humanos a erros, ilusões e cegueiras no processo do conhecer, fruto da consciência humana. Essa “visão de mundo” imprime idéias, valores, percepções falsas da realidade, e de certa forma, bloqueia o conhecimento do ser humano e inevitavelmente suas ações.

A Instituição escolar vem reproduzindo essa “visão paradigmática” desde a sua origem, e atualmente problemas como: evasão, repetência, indisciplina, violência, etc. são decorrentes de uma educação que não é compatível com as novas demandas culturais e sociais de educandos, e dessa forma, não oferece um tipo de ensino pertinente, global, contextualizado, que orienta uma nova leitura da realidade, ocultando possíveis erros, ilusões e cegueiras… chegar a esse tipo de conhecimento será desafio ou utopia? Derrotar Procusto ou ser seu amigo?

Essas questões estão no cerne dos debates educacionais nos últimos anos e devem ser problematizadas na perspectiva de encontrar um novo modelo de Educação, adequado com as transformações tecnológicas e científicas da atualidade. Os desígnios do século XXI declaram novas matrizes curriculares e novos ordenamentos disciplinares para receber essa nova demanda de educandos. A complexidade dos problemas relativos à Educação atual exige novos direcionamentos pedagógicos com a perspectiva de evitar novos erros e cegueiras para as novas gerações e definitivamente aniquilar o fantasma de Procusto.

10 Comments

  1. Klaus do iate 13 de março de 2013 at 8:44 - Reply

    Ótimo texto! Realmente muito bom. André. Mitos gregos sempre dão ponto de partida para reflexoes sérias. Já diria o Freud.
    Definitivamente aniquilar o fantasma de Procusto, acho que não dá não.
    Nao tenho certeza, mas , no mito, quem mata Procusto, não foi Teseu? Colocando-o na propria caminha? E Teseu, apesar de heroi, e ter realizado grandes feitos em beneficio de Atenas mítica , também se torna um rei ENQUADRADOR ,capaz de vilanias,( um sucessor digno do Procusto?). A primeira pode ter sido deixar Ariadne depois dela ter abandonado tudo por ele.
    Construir paradigmas cada vez mais abrangentes é possível, Convidar o outro a construir seu conhecimento de modo mais livre ou ativo, também dá, Mas como dizia Buda somos prisioneiros dos 5 sentidos e portanto sujeitos a erro já de saída ao captar informação, que dirá ao interpretá-la.

  2. André Rodrigues 13 de março de 2013 at 15:14 - Reply

    Boa tarde Klaus…

    Como sempre uma excelente reflexão em torno do mito… Teseu, além de aniquilar o Minotauro no famoso labirinto de Cnossos, também foi responsável pela morte de Procusto…

    A ideia de aniquilar o fantasma de Procusto, logicamente será sempre uma metáfora, sabemos que a nossa própria formação cultural está permeada de visões paradigmáticas que nos impossibilitam de interpretar com abrangência as informações que recebemos…

    Um abraço a você e sucesso com o site!

    André.

  3. dayene 14 de março de 2013 at 17:31 - Reply

    adoreiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii essa histori ta igual a do meu livro de historia

  4. André Rodrigues 15 de março de 2013 at 18:19 - Reply

    Muito obrigado Dayene…

    Se precisar de outras indicações de livros sobre Mitologia ou História é só entrar em contato…

    Abraço;

  5. Eduardo 6 de agosto de 2013 at 8:33 - Reply

    Caro André,

    O teu artigo sobre o “leito de Procusto” é por demais contemporãneo face a crise paradigmática que estamos vivenciando (há muito tempo, infelizmente).
    Vai além da educação. Na saúde também impera muito o leito (ou maca) de Procusto, através da padronização de diagnósticos baseado em medidas e tratamentos genéricos aplicados indistintamente sem levar em consideração o indivíduo e suas idiosincrasias.

  6. Klaus do Iate 30 de agosto de 2013 at 1:47 - Reply

    Eduardo está soterrado de razão.

  7. Marlene 19 de agosto de 2015 at 20:59 - Reply

    Na educação, vemos, com frequência, a prática de currículos homogêneos para alunos com estilos e ritmos tão diferentes de aprendizagem.
    E se os educadores fossem submetidos à cama de Procusto para poderem refletir um pouquinho?

  8. MARIA NILDA DOS SANTOS SOUZA 7 de março de 2016 at 12:40 - Reply

    Na educação, apesar das conquistas, mas ao fazermos uma analogia das práticas pedagógicas , tendo em vista o currículo, a avaliação, logo notamos que temos resquícios do período jesuítas,império e militar.Ao refletir a forma como nossos alunos são avaliados, notamos que nós educadores, salvo algumas exceções queremos que nossos alunos sejam submetidos ao nosso padrão que está centralizado em nossa mente,assim como Procusto submetia suas vitimas para tal cama.

  9. RAPHAELA FARIA SANTOS 15 de junho de 2016 at 19:48 - Reply

    Olá! Gostaria de citar esse artigo no meu tcc. Precisava das informações de publicação e informações do Autor.

  10. LEONIDIO 13 de abril de 2017 at 11:03 - Reply

    Bom dia !
    achei interessante a proposta desse site. Parabéns!

    Quando adolescente, tive a oportunidade de ler a saga do mitológico Procusto. Nunca esquecí.
    Vejo em toda a sociedade em cada individuo, a sombra de Procusto, inclusive esse que está escrevendo esse comentário.
    Abraço e obrigado.

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