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Sócrates e a Democracia Grega

Fevereiro 15th, 2013|Artigos|20 Comments


Este artigo é de total responsabilidade do autor e foi escrito por André Rodrigues, historiador, coordenador do curso de licenciatura em História da UNIBAN/ANHANGUERA e editor do blog História em Perspectiva.

A Construção do regime democrático e a contribuição intelectual de SÓCRATES – “o pai da filosofia”

O século V a.C. foi definido pelos historiadores como “O Século de Ouro” – e realmente foi um período de grandiosas realizações. No campo militar, ocorreram as famosas “Guerras Médicas” (499 – 449 a.C.) entre os Persas de Dario I e Xerxes. Essas campanhas militares, desde o historiador Heródoto, foram cantadas como a vitória da civilização contra a barbárie, do Ocidente sobre o Oriente. Era o pequeno exército grego de homens livres, ordenado pela astúcia da razão democrática, que vencia o exército persa, constituído por uma imensa multidão de servos e escravos.

Ágora e a democracia grega

Do ponto de vista da produção do conhecimento desse período, destacam-se três filósofos: Sócrates, Platão e Aristóteles. Todos eles viveram em Atenas, pelo menos durante o período central de sua produção, e foram autores de obras que influenciaram não apenas o momento histórico em que viveram, mas também o próprio desenvolvimento da Filosofia e da Ciência. A preocupação desses filósofos era trazer para o centro de suas indagações o HOMEM como ser capaz de produzir conhecimento através do desenvolvimento de sua Moral. Acreditavam, portanto, que o Conhecimento – a Filosofia – tinha uma função social, e por isso, consistia na formação de cidadãos como tarefa indispensável para a transformação da sociedade.

Após a vitória sobre os Persas, a democracia ateniense – fundada após as reformas dos legisladores Drákon (621 a.C.), Sólon (594 a.C) e Clístenes (521 a.C.) – foi finalmente consolidada e fez de Atenas o “berço do regime democrático”. Desenvolveram-se e praticaram-se as principais formas representativas de poder político: a Assembleia popular reunida em praça pública; as eleições diretas; os Conselhos e também as Magistraturas exercidas alternadamente por todos os cidadãos.

Derivadas das experiências das polis (“cidade” em grego), surgiram não somente nossa palavra “política”, como também as nossas práticas eleitorais, a escolha de representantes, o costume de consultar a todos os cidadãos nas questões mais importantes, a concepção de que existem decisões e poderes que são legítimos e outros ilegítimos, etc.

A democracia ateniense estava, dessa maneira, no centro de todas as grandes realizações desse período. O poder era exercido por Conselhos e Magistrados eleitos anualmente, diretamente ou por sorteio. O poder mais alto era a Assembleia popular, organizada por meio de votações realizadas com o erguimento das mãos, logicamente destinado àqueles que tinham a habilidade e a oralidade bem desenvoltas, como no caso específico dos “Eupátridas” (os bem nascidos), a classe dos aristocratas que tinham acesso ao conhecimento. Os “georgói” (pequenos proprietários) e os “Thetas” (artesãos e marginalizados) podiam participar das decisões, mas muitas vezes eram manipulados.

Podemos perceber, portanto, que havia uma grande contradição no regime democrático dos atenienses. O poder não era exercido pelo povo como entendemos na etimologia da palavra “DEMOKRATÓS”, e sim por uma pequena porcentagem da população. A grande maioria da população, composta de Metecos (comerciantes estrangeiros), mulheres e escravos, estava absolutamente destituída do poder político e da participação na Assembleia.

Portanto, pode-se dizer que, paradoxalmente, se a democracia ateniense inventou a liberdade, inventou também o modo de produção escravista clássico, que iria perdurar por toda a Antiguidade.

Essa contradição no regime democrático talvez nos explique o julgamento e execução de Sócrates, em 399 a.C., que foi acusado de corromper a juventude ateniense e de introduzir o culto a novos deuses. Conforme relataram os seus contemporâneos (principalmente Platão), ao retirar-se do tribunal, o filósofo ironicamente disse aos seus juízes que o condenaram à amargura da cicuta (o veneno que tirou-lhe a vida): “Chegou a hora de separar-me de vós e de irmos, eu a morrer e vós a viver. Quem leva a melhor parte? Vós ou eu?”

Logicamente Sócrates levou a melhor parte quando pensamos na produção do pensamento filosófico. Mesmo sem escrever uma única obra, sua contribuição para o entendimento do homem (como ser cognoscível) e seu relacionamento com a vida política, suas preocupações e a construção de sua moralidade, representam para a posteridade a evolução do pensamento político e da Filosofia.

A política na Grécia Antiga era inseparável das reflexões filosóficas. Compreendemos melhor a construção e a evolução da maneira do homem compreender e questionar o mundo ao analisar as relações históricas que os gregos “legítimos” construíam na Polis, nas diversas discussões na Ágora. Sócrates foi, sem rival, o catalisador da mudança que colocou o homem no centro da investigação filosófica, “Conhece-te a ti mesmo”, dissera o Oráculo de Delfos, e Sócrates apropriou-se dessa máxima, multiplicando-a numa série de ideias.

Nascido em Atenas entre 470 e 469 a.C. – filho de um escultor, Sofronisco, e de uma parteira, Fenareta –, Sócrates viveu o início da fase áurea da democracia ateniense. Teria seguido, durante algum tempo, a profissão paterna e é provável que tenha recebido a educação dos jovens atenienses de seu tempo, aprendendo música, ginástica e gramática. Além disso, beneficiou-se da própria atmosfera cultural da época. Atenas era, no seu tempo, um ponto de convergência cultural e um laboratório de experiências políticas, onde se firmara, pela primeira vez na história dos povos, a tentativa de um governo democrático, exercido diretamente por todos os que usufruíam do direito de cidadania.  

Sócrates acreditava que a alma humana é a sede de sua faculdade racional, o fator essencial que distingue o homem dos animais. Mas a alma possui também um elemento irracional e, para o homem, o grande problema é tornar-se verdadeiramente humano, isto é, permitir que o elemento racional domine e controle o outro, pois nada disso tem sentido com o isolamento. A sabedoria e a bondade só são verdadeiramente possíveis onde existe uma relação, por um lado, entre o homem e o homem e, por outro, entre o homem e o eterno. Daí o fato de o amor, a amizade, a piedade, a imortalidade e, sobretudo, a justiça, se encontrarem entre os temas relevantes dos diálogos de Sócrates.

Dessa forma, Sócrates obrigava os atenienses a repensarem as suas imagens de belo e de bom, de justo e de injusto, de vida feliz, de ideal de cidade. Assim como desde sua juventude abalara as próprias certezas, sempre repetindo que apenas sabia que nada sabia, abalava também as certezas de todos, pobres ou ricos, homens livres ou escravos, artesãos, políticos, prostitutas, sofistas ou juízes. Todos diante de Sócrates eram obrigados a repensar os seus fins.

A grande contribuição de Sócrates não está na discussão política e suas contradições, nem na ideia de que a política e a justiça devem estar ligadas, mas sim no modo radical e sistemático de análise dos problemas e na perseverante insistência de que a política (e todo o comportamento) tem de ser orientada racionalmente e julgada por normas éticas absolutas.

Dessa forma, está inserido “no Olimpo” como um dos grandes educadores da antiguidade, tendo sido responsável pela elaboração de uma metodologia de ensino voltada a “parir” o “verdadeiro bem” daqueles que o acompanhavam: por intermédio da ironia e da maiêutica, levava os seus discípulos ao reconhecimento de seu grau de ignorância e os incentivava a buscar em si mesmos os melhores conceitos e direcionamentos para a vida na Pólis. É possível arriscar que Sócrates buscava sempre retirar os homens de seu tempo do “senso comum” e encaminhá-los em direção à razão.

Assim, quando em 399 a.C. a democracia condena-o à morte, ela se defende de um filósofo revolucionário. Falharam assim, sem dúvida, os seus juízes, e provaram a ironia da dialética ao receitarem a Sócrates a amargura da cicuta. Ele, no entanto, certamente levou a melhor parte.

20 Comments

  1. Noé Gomes 15 de Fevereiro de 2013 at 10:29 - Reply

    Muito bom este teu texto André. Além de leve é aguça-nos a curiosidade sobre o tema.
    Parabéns Michel e André.

  2. Klaus do Iate 15 de Fevereiro de 2013 at 10:56 - Reply

    Excelente texto, mas respeitosamente gostaria de adicionar alguns detalhes que reforçam a posicao do autor e divergir em alguns pontos.

  3. Klaus do Iate 15 de Fevereiro de 2013 at 11:08 - Reply

    A experiencia de autogoverno, algo mais proxima da democracia ideal que a democracia ateniense, ja tinha pipocado em todo mundo em varios povoados neoliticos, provavelmente até 10000hab. Entao ultrapassada esta marca em algum local da Sumeria surge o Estado como unica forma de manter vivo um grupo numeroso de pessoas. Apesar de ser uma solucao o Estado era (e é) cleptocratico e praticamente um antonimo do regime anterior. Uma relacao elite-massa era cosntruida e a autoridade da elite inicialmente justificada pelas solucoes criativas que dava ao todo, mas logo a elite se preocuparam sobretudo em se manter no poder e a nao representar mais as necessidades da massa tao claramente. A novidade em Atenas era aumentar a representatividade da massa dentro da estrutura decisoria do Estado. A SEU MODO até Esparta fez isto, entre os esparciatas havia real igualdade de poder, entre os diversos “cidadaos validos” de Atenas nao havia. Tanto Esparta, quanto Atenas porem tinham regimes muito excludentes para o que chamariamos hoje de democracia. E finalmente a democracia ocidental atual é muito mais descendente direta de guildas/corporaçoes medievais que vinham de assembleias clanicas dos germanos (e mais proximas dos regimes igualitarios neoliticos) que do sofisticado regime ateniense. Um imperio romano cada vez mais mo narquico durando 500 anos separa Atenas destes verdadeiros pais da democracia ocidental.

  4. Klaus do Iate 15 de Fevereiro de 2013 at 11:18 - Reply

    Apesar de Socrates melhorar o mundo , ele nao conseguiu melhorar a democracia ateniense. Platao, diante do julgamento injusto de seu mestre, passou a odiar a democracia e propos uma meritocracia de reis-filosofos em sua Republica. E Aristoteles já nao habitava o Século de Ouro de Atenas, ela estava em plena decadencia politica, ja havia sido vencida por Esparta e Macedonia. O proprio Seculo de Ouro (V aC) ‘e um termo atenocentrico, Ele nao representa idade dourada para todo o Mundo grego. Antes de terminar este periodo todas as vitorias contra o regime “barbaro” da monarquia persa tinham sido anuladas, por ouro persa bem usado nas guerras fratricidas entre as poleis. Antes do seculo V, houve a era dourada da Grecia Asiatica. A filosofia foi inventada por Tales de Mileto quando esta estava sob regime persa. A propria filosofia s’o nasce a partir desta precondi’cao da paz persa, quando tantos produtos e deuses se encontravam e Tales pode notar o relativismo das diferen’cas e igualdades. E a Magna Grecia nao afundou com seculo V aC.

  5. Klaus do Iate 15 de Fevereiro de 2013 at 11:19 - Reply

    As poleis da Sikelia e Magna Grecia continuam a brilhar apos seculo V.

  6. Klaus do Iate 15 de Fevereiro de 2013 at 11:26 - Reply

    Quanto a evolu’cao da democracia ateniense, ela foi bem gradual, ela segue um padrao menos espetacular que os livros de historia do ensino medio mostram. Como Foustel de Culanges j’a falava, as poleis nascem como associacoes religiosas de poderosos clans de latifundiarios que sofrem 4 “revolucoes” at’e chegar a “democracias” . Mesmo no auge, alguns cargos em Atenas eram escolhidos pelos deuses (sorteios) e a palavra preferida era isonomia e nao democracia. Assim fica mais facil preceber como este regime ‘e que estimula cleruquias (trata aliados como inimigos vencidos), escravidao e manda executar Socrates.
    Roma quase completa estas sequencia de 4 revolucoes ,mas paralisa a evolucao das outras poleis se mostrando como defensora das aristocracias delas. Isto faz a expansao bemsucedida romana ser 50% produto do trabalho das legioes, mas 50% nao precisar ser.

  7. Klaus do Iate 15 de Fevereiro de 2013 at 11:30 - Reply

    A democracia ateniense lembra a democracia da republica cafeeira brasileira. Democracia das oligarquias.

  8. André Rodrigues 15 de Fevereiro de 2013 at 13:45 - Reply

    Muito obrigado pelas considerações Noé, Michel e Klaus…

  9. Noé Gomes 16 de Fevereiro de 2013 at 2:25 - Reply

    De nada André!

  10. Noé Gomes 16 de Fevereiro de 2013 at 2:27 - Reply

    Meu caro amigo Michel,
    Tens sim um mérito: o de compartilhar o teu espaço com os colegas de blogsfera. Isto é meritoso, vejo e tenho certeza que tu também muitas vaidades no meio da História. Por isso a referência a tua pessoa também.

  11. Klaus do Iate 18 de Fevereiro de 2013 at 8:03 - Reply

    De nada, André!

  12. Klaus do Iate 18 de Fevereiro de 2013 at 8:08 - Reply

    Lembrei-me agora que Socrates costumava dizer:
    -Atenas é um imenso pangaré e eu sou um carrapato que de vez em quando o faz se mexer.
    Desmascarando as bobeiras das elites, igualando mulheres, escravos e cidadaos, Socrates só podia mesmo sofrer o destino de carrapatos. Ainda sim poderia ter apostasiado suas declaracoes e ter ‘apenas” sido banido, mas para quem acreditava que a Outra vida era melhor e esta vida, que sempre tem fim, só valia ser vivida dentro de certos valores, a cicuta foi uma escolha esperada.

  13. Klaus do Iate 18 de Fevereiro de 2013 at 10:54 - Reply

    Segundo as descriçoes da aparencia física de Socrates, ele pode ter sido um sobrevivente de sífilis congênita e antes de se pensar que sua mae fosse uma profissional do sexo ou que o pai dele fosse um pulador de cerca, ha um detalhe. A sifilis pode ser obtida de modo nao sexual por manuseio de um recem-nascido acometido de sifilis. A mae de Socrates era parteira. Pode ter adquirido a doença manuseando o filho de alguem. Depois engravidou, gerando Socrates e involuntariamente a bacteria poderia invadir transplacentariamente o corpo do feto Socrates. Tudo isto é conjectura, mas acentua o fato que raramente ocorre na historia, mas ainda assim ocorre, de pessoas geniais com lesoes cerebrais: Julio Cesar teve asfixia perinatal e teve epilepsias para o resto da vida e no entanto era Julio Cesar.

  14. Klaus do Iate 14 de Março de 2013 at 9:29 - Reply

    A Sífilis ou Lues ainda é considerada uma doença exclusivamente americana até seculo XVI, mas ha outras treponematoses similares a ela, que poderiam estar no Velho Mundo Pre-Colombiano.

  15. André Rodrigues 15 de Março de 2013 at 18:23 - Reply

    Klaus seus comentários me desafiam a abranger ainda mais o meu campo de atuação e formação. Percebo a cada dia em minhas aulas e quando produzo textos, que a História é uma ciência dinâmica e que deve aproveitar dos estudos de outras ciências para uma leitura mais abrangente e eficaz sobre o passado…

    Um abraço e sucesso com o site!

    André.

    • Michel Goulart 19 de Março de 2013 at 19:07 - Reply

      E isso que o Klaus é médico e tem um conhecimento tão enciclopédico que aprendo sempre com ele. Ele disse que lê até 10 livros ao mesmo tempo! Agora já sabemos o que ele faz no intervalo entre os plantões, hehe

  16. André Rodrigues 20 de Março de 2013 at 0:24 - Reply

    Michel… o cara é mesmo um fenômeno!

    Parabéns a vocês pelo blog e pelas lições de História…

  17. BamBam 18 de Maio de 2016 at 18:47 - Reply

    AQUI NÓS CONSTROI FIBRA

    NÃO É AGUÁ COM MUSCULO

  18. Boa noite! Tem como vc me passar mais informações sobre SÓCRATES e O FIM DE UMA DEMOCRACIA 17 de Março de 2018 at 21:18 - Reply

    Gostaria de saber mais sobre o SÓCRATES e o FIM DE UMA DEMOCRACIA

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