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A saborosa narrativa do Desastre de Azincourt

setembro 19th, 2018|Blog|0 Comments


Estou começando a ler “Joana D’Arc”, da historiadora britânica Helen Castor e me deparei com a saborosa narrativa do Desastre de Azincourt, batalha que ocorreu em 1415, nas proximidades da Normandia, entre o exército francês, sob reinado de Carlos, e o exército inglês, sob reinado de Henrique V.

A saborosa narrativa do Desastre de Azincourt

A denominação ‘desastre’ está relacionado à dura derrota dos franceses, no contexto da Guerra dos Cem Anos, o que levaria a um prolongado predomínio inglês na região. Certamente, os desdobramentos estarão associados à participação da jovem Joana, a Donzela (o D’Arc será utilizado depois).

De qualquer forma, a forma utilizada por Helen Castor para compor a imagem da batalha e o massacre dos franceses sob a ponta das flechas inglesas é, na minha opinião, de uma grande riqueza narrativa. Vejamos, na p. 32

O tempo ficou mais lento quando o sol pálido se levantou. De repente, um grito inglês se elevou, e suas bandeiras começaram a se mover. Esta seria a hora: as linhas francesas se lançaram através da terra na qual tinham se reunido para defender. Então o ar mudou com um zumbido e, de repente, o céu estava escuro. As flechas com ponta de lâmina, atiradas em uma tempestade infinita e turbulenta, mergulharam nos peitorais e nas viseiras, perfurando músculos e ossos. A morte violenta estava caindo das nuvens; e, em resposta, esporas chutavam os cavalos gritando para investirem sobre os arqueiros cujos arcos provocavam esse massacre. Eles encontraram  apenas um tipo diferente de morte, empalando-se sobre as estacas afiadas que – perceberam tarde demais – estavam espetadas no chão em que os arqueiros estavam, ou rodando em pânico e tropeçando sob os cascos palpitantes daqueles que pressionavam por trás.

Mortos e vivos caíam juntos, esmagados na terra sufocante, um em cima do outro, em pilhas amontoadas das quais ninguém se levantava. Por mais de duas horas, os soldados franceses trabalharam sem parar, os pés pesados lutando na lama que os sugava ou emaranhados nos membros contorcidos dos que tombaram, e o tempo todo as lâminas inglesas cortavam e apunhalavam e retalhavam. O som de reforços, fracos em meio à cacofonia homicida, trouxe uma esperança vacilante de resgate; mas o duque de Brabant, correndo para chegar à batalha, havia galopado para longe, rápido demais, ultrapassando suas tropas e seu equipamento. Foi derrubado poucos minutos após se lançar na luta, seus ferimentos mancharam a bandeira que tinha arrebatado de seu trompetista para vestir, improvisando um furo irregular para passar a cabeça, como um brasão provisório

É o tipo de narrativa que faz a gente dar aquela viajada quando lemos um livro de História, como se estivéssemos presenciando a cena. Neste caso, pela ótica do infeliz exército francês.

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